O acento do português brasileiro é quase comportado. Na maior parte das palavras não-verbais, ele cai na penúltima sílaba; e migra para a última quando esta é pesada — fechada, com coda ou vogal longa. Ou seja: dá para adivinhar boa parte dele olhando só a borda direita da palavra e o peso das sílabas de lá.
Mas há uma cauda. As proparoxítonas — acento na antepenúltima — são uma minoria real que a borda direita não prevê. E é aí que mora a armadilha de um modelo que se apoia forte demais nessa pista: ele acerta a maioria com folga e, no mesmo gesto, apaga a cauda. Quanto mais categórica a pista da borda, mais a probabilidade da proparoxítona desce rumo a zero:
Em termos de restrições, a história é a de sempre: peso e alinhamento à direita entregam a penúltima por padrão e a última quando o fim é pesado — mas nunca a antepenúltima (Kager, 2004). Não há alavanca para ela. Uma sílaba leve à direita, e vence a paroxítona:
Uma sílaba final pesada, e o acento salta para ela:
Repare que, nos dois quadros, a proparoxítona perde — a arquitetura presa ao peso e à borda simplesmente não a alcança. E isso tem consequência para quem aprende: um aprendiz que maximiza o ajuste ao padrão regular tende a regularizar as exceções, a menos que algo as proteja — uma marca lexical, uma representação mais rica (Lee et al., 2025).
Vale ver a conta: a distribuição do acento sobre as três posições, e o que a categoricidade faz com a cauda da antepenúltima:
import math
b = [0.0, 0.8, 0.4] # viés posicional: antepenúlt., penúlt., final (padrão = penúlt.)
def P(w, beta):
H = [w[i] + b[i] for i in range(3)]
e = [math.exp(beta * h) for h in H]; Z = sum(e)
return [x / Z for x in e]
w = [0, 0, 0] # três sílabas leves
print("categoricidade β P(proparox) P(parox) P(oxít.)")
for beta in [0.5, 1, 2, 4, 8]:
p = P(w, beta)
print(f" {beta:>3} {p[0]:.3f} {p[1]:.3f} {p[2]:.3f}")
No fim, a certeza é um tipo de esquecimento. Uma regra quase certa arredonda o "quase" — e a cauda, onde vivem as exceções interessantes, é a primeira coisa a ir embora.
- Kager, R. (2004). Optimality Theory. Cambridge University Press.
- Lee, S. S., Pater, J., & Prickett, B. (2025). Representing and Learning Stress in a MaxEnt Framework. Proceedings of AMP 2023/2024.
Barroso, A. M. (2025). O peso da última sílaba. alexandrebarroso.com. https://alexandrebarroso.com/notes/o-peso-da-ultima-silaba.html
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