Alexandre Barroso ←

Onde duas línguas se sobrepõem

O que é um espaço "partilhado" entre duas línguas? Não é um lugar para o qual se aponte. Vale começar por uma imagem mais honesta de categoria: não um ponto, mas uma nuvem — uma distribuição de realizações espalhadas pelo espaço acústico (Pierrehumbert, 2016). Cada língua guarda a sua nuvem. Projete duas delas sobre o eixo que melhor as separa e terá duas gaussianas, cada uma com seu centro.

"Partilhado", então, é só o nome que damos à região onde as duas nuvens deixam de ser separáveis — a faixa ambígua onde uma realização poderia pertencer a qualquer uma. Aproxime os centros e essa faixa cresce; afaste-os e ela míngua. Repare que não há um ponto em que as duas categorias "viram uma só": há apenas uma sobreposição que sobe e desce conforme a distância entre elas:

Nada disso é exótico. Duas variedades podem ser postas lado a lado no espaço acústico e comparadas pista a pista — formante por formante, digamos (Escudero et al., 2009). E do lado de quem ouve, categorizar é mapear essas pistas em categorias, tarefa que uma gramática de percepção faz pesando restrições de pista (Boersma, 2009). Quando a pista cai perto de um protótipo, a decisão é fácil:

Tableau de percepção MaxEnt: um estímulo periférico é categorizado com folga como A.

Mas quando cai bem no meio, na sobreposição, a gramática não tem como decidir — e reparte a aposta meio a meio:

Tableau de percepção MaxEnt: um estímulo ambíguo, na zona de sobreposição, divide-se meio a meio.

E os bilíngues? A graça é que eles tendem a comprimir o gap: suas duas categorias derivam uma em direção à outra, e a faixa partilhada incha. Não é defeito nenhum; é a mesma curva, só que num ponto de separação menor. Dá para conferir a conta — a sobreposição de um gap monolíngue contra a de um gap bilíngue, e o empate exato no meio:

pythonsobreposição, e o empate no meio
import math
def Phi(z): return 0.5 * (1 + math.erf(z / math.sqrt(2)))
sobrepoe = lambda dp: 2 * Phi(-dp / 2)          # coeficiente de sobreposição (σ igual)

for nome, dp in [("monolíngue", 3.0), ("bilíngue", 1.5)]:
    print(f"{nome:11s} d'={dp}  sobreposição = {100 * sobrepoe(dp):.0f}%")

# a mesma nuvem, vista como decisão: protótipos em -1.5 e +1.5, sigma 1
def categoriza(x, mA=-1.5, mB=1.5):
    hA, hB = math.exp(-(x - mA) ** 2 / 2), math.exp(-(x - mB) ** 2 / 2)
    Z = hA + hB
    return hA / Z, hB / Z

for nome, x in [("periférico x=-1.5", -1.5), ("ambíguo x=0", 0.0)]:
    pA, pB = categoriza(x)
    print(f"{nome:18s} -> P(A)={pA:.2f}  P(B)={pB:.2f}")

No fim, "espaço partilhado" não é um endereço; é uma medida. É a região onde distinguir as duas coisas deixa de ser fácil. Diga o quanto elas estão separadas e você já terá dito o quanto, afinal, partilham.

  1. Pierrehumbert, J. B. (2016). Phonological representation: Beyond abstract versus episodic.
  2. Escudero, P., Boersma, P., Rauber, A. S., & Bion, R. A. H. (2009). A Cross-Dialect Acoustic Description of Vowels: Brazilian and European Portuguese. Journal of the Acoustical Society of America.
  3. Boersma, P. (2009). Cue constraints and their interactions in phonological perception and production. Preprint.

Barroso, A. M. (2025). Onde duas línguas se sobrepõem. alexandrebarroso.com. https://alexandrebarroso.com/notes/onde-duas-linguas-se-sobrepoem.html

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