Alexandre Barroso ←

Um inventário é um campo de contrastes

Um inventário de vogais não é uma lista de segmentos guardados numa gaveta. É um campo de contrastes — e cada vogal, mais do que um ponto com um rótulo, é um território: a fatia do espaço acústico mais próxima dela do que de qualquer vizinha. Junte sete e o espaço se reparte sozinho num mosaico, cada célula desenhada não pela vogal em si, mas por quem está ao redor:

O interessante mora na localidade. Empurre uma vogal para um lado e só as células vizinhas se refazem; as do outro canto do mapa nem percebem. É uma boa imagem para uma coisa que a gente vê o tempo todo: sistemas podem se reorganizar por dentro, aqui e ali, sem que a arquitetura geral se mova. O quadro grande fica de pé enquanto os detalhes locais se acomodam.

Essa é, no fundo, a velha intuição da dispersão: um sistema espalha suas categorias para mantê-las suficientemente distintas ao longo do espaço disponível (Flemming, 2004). E se a identidade de cada uma é relacional — definida por contraste com as demais —, então até os traços que lhes atribuímos podem ser lidos a partir dos contrastes em que a categoria entra, e não entregues de antemão: traços nomeiam as dimensões por onde os contrastes correm (Mielke, 2011).

Tire os territórios e olhe só para a rede de quem faz fronteira com quem, e a dispersão global — o quanto o sistema preenche o espaço — mal se mexe quando você cutuca uma vogal só. Dá para dizer o mesmo num tableau: o lugar "certo" de uma vogal depende de quem são seus vizinhos. Com um vizinho no alto, a distinção a empurra para baixo:

Tableau de Gramática Harmônica com um vizinho no alto: a restrição de distinção empurra a vogal-alvo para baixo.

Ponha o vizinho embaixo e, com exatamente os mesmos candidatos, o vencedor sobe:

O mesmo com um vizinho embaixo: a mesma restrição empurra a vogal-alvo para cima.

Vale conferir a conta: a dispersão global de um inventário, os pares que fazem fronteira, e o que acontece a ambos quando se desloca uma única vogal:

pythondispersão e contrastes, antes e depois de um empurrão
import math
# vogais em F1,F2  (E = ɛ, O = ɔ)
F1R, F2R = (280, 760), (750, 2400)
V = {"i": (300, 2300), "e": (400, 2100), "E": (550, 1900), "a": (700, 1500),
     "O": (550, 1100), "o": (400, 900), "u": (320, 800)}
def norm(v): return ((v[1] - F2R[0]) / (F2R[1] - F2R[0]), (v[0] - F1R[0]) / (F1R[1] - F1R[0]))
def dd(a, b): return math.hypot(a[0] - b[0], a[1] - b[1])
def dispersao(Pv):
    ns = list(Pv)
    return sum(min(dd(norm(Pv[n]), norm(Pv[m])) for m in ns if m != n) for n in ns) / len(ns)
def contrastes(Pv):                      # vizinhos de Voronoi (fronteira substancial)
    ns = list(Pv); cnt = {}
    for gx in range(80):
        for gy in range(56):
            p = (gx / 79, gy / 55)
            o = sorted(ns, key=lambda n: dd(p, norm(Pv[n])))
            k = tuple(sorted((o[0], o[1]))); cnt[k] = cnt.get(k, 0) + 1
    return {k for k, c in cnt.items() if c >= 0.008 * 80 * 56}

A0 = contrastes(V)
print(f"D = {dispersao(V):.3f}   contrastes = {len(A0)} pares")
V2 = dict(V); V2["e"] = (430, 1850)      # cutuca uma vogal só
A1 = contrastes(V2)
print(f"movendo [e]:  D = {dispersao(V2):.3f}   contrastes = {len(A1)} pares")
print("arestas que mudaram:", sorted(A0 ^ A1))

No fim, uma vogal é menos uma coisa do que um lugar entre outros lugares. Mexa nos vizinhos e você a terá mexido; deixe-os quietos e ela se sustenta. A identidade, aqui, é um endereço — não uma essência.

  1. Flemming, E. (2004). Contrast and Perceptual Distinctiveness. Preprint.
  2. Mielke, J. (2011). Distinctive Features. The Blackwell Companion to Phonology.

Barroso, A. M. (2025). Um inventário é um campo de contrastes. alexandrebarroso.com. https://alexandrebarroso.com/notes/um-inventario-e-um-campo-de-contrastes.html

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